O produto mais sustentável é aquele que já existe?

Quantas vezes você ouviu que o produto mais sustentável é aquele que já existe? 

Apostamos que pelo menos umas 10 vezes, apenas nos últimos 30 dias.


Com o aumento da produção estimada para 2030, a contribuição da moda para o colapso climático deve aumentar 49% segundo estimativas da Quantis e 63% segundo estimativas do Global Fashion Agenda (GFA). Não é à toa que as pessoas, principalmente os consumidores de moda mais atentos, estejam tão alertas e dispostos a apostar em brechós. 


O mercado de segunda mão é um dos que mais crescem no país — seja por demanda do público, devido a queda no poder de aquisição do consumidor, ou pela mudança na maneira de enxergar os impactos do próprio consumo para o planeta. Segundo o mais recente relatório de inteligência do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) sobre o mercado de segunda mão,10,8 mil micro e pequenas empresas comercializavam produtos usados em 2013. No ano de 2015, esse número aumentou para 13,2 mil negócios, o que representa um crescimento de 22,2%. 


Consumo consciente em pauta

Entre os anos de 2010 e 1015, a pesquisa por "consumo consciente"aumentou 400%. Há alguns anos, a Box 1824 estudou o lowsumerism e a mudança no comportamento de consumo, principalmente na geração Z.




Gente se vira como pode

O uso de roupas usadas nunca foi tendência, mas necessidade, no Brasil. Apesar de sermos um grande pólo têxtil e de desenvolvimento do setor de vestuário, muitas pessoas acabam reutilizando roupas de amigos, vizinhos e outros familiares para terem o que vestir.

Há alguns anos, as gêmeas Tasha e Tracie já faziam muito sucesso falando de moda e beleza na periferia. Moradoras do Jardim Peri, na Zona Norte de São Paulo, com o que tinham e transformavam roupas de brechó vindas de doação com linha, tesoura e muita criatividade. Em 2014, elas criaram o Expensive Shit — um blog com diversos tutoriais e reflexões sobre a juventude periférica.

Casos como de Tasha e Tracie pipocam Brasil afora, o brechó e as customizações são elementos culturais no "fazer" moda de muitos jovens. 


"Não é arriscado afirmar, então, que o consumo de roupas usadas no Brasil tende a ser, em grande parte, o que sempre foi: um jeito de se virar com o baixo orçamento, cada um a sua forma."

Modefica


Além de questões financeiras, a falta de variedade nos tamanhos e conhecimento profundo sobre as necessidades dos brasileiros, está entre os motivos que justificam o crescimento de grandes sites varejistas, como a Shein. 


"Eu compro na Shein porque tenho dificuldade de encontrar roupas do meu tamanho que tenham informação de moda e sejam condizentes com a minha idade. Minhas amigas têm opções, enquanto eu tenho várias restrições. Às vezes, me revolta quando alguém quer me dar lição de moral com sustentabilidade, mas esquece todas as questões sociais por trás." 

Juliana Navarro, Gen Z e produtora cultural


O custo-baixo e as tendências não são os únicos atrativos do site. Em redes sociais como TikTok e Twitter, os jovens clientes afirmam finalmente poderem acessar produtos de moda com disponibilidade de tamanho para seus corpos. Também não é como se esses jovens pudessem encontrar variedade de tamanhos dentro dos brechós da cidade ou em montantes de arrecadações. 

Com as escolhas limitadas a fatores sociais como dinheiro e diversidade, fica difícil não colocar a necessidade à frente da consciência na hora de escolher um produto.

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